Existe poesia nas ruas de Sobral-Ce

Foto: Gisélia Silveira
Um dos rabiscos do menino-poeta. 
Ele não cheirava bem, nem tão pouco vestia roupas limpinhas. Nem tão pouco os seus cabelos estavam arrumados e nem existia um calçado em seus pés. Com essa aparência conheci um poeta das ruas de Sobral.

Foi pedindo 0,10 que ele chegou até a mim. Eu logo neguei, como fazemos tão constantemente. E quando ele percebeu que eu virei a cara ele falou parecendo ler meus pensamentos:
-Moça, num é pra comprar droga não! Eu só quero comer. 

Eu o olhei comovida e temerosa e perguntei:
-E com 0,10 dá pra você comprar um lanche?

Ele me olhou, riu e sem precisar de ter estudado muito, nem ter feito faculdade ou coisa do tipo me respondeu tão humanamente:
-Se você me der 0,10 eu posso juntar. Eu só quero comer. Não é droga não moça. Não dá pra comprar com 0,10. ”

Foi por causa desses 0,10 que tanto me falou que eu comecei uma breve conversa, que pra mim, poderia durar anos.
Um menino, morador de rua, com um sonho de encontrar a mãe que foi embora para Fortaleza, nunca a conheceu, estudou só até a oitava série do Ensino Médio.
Eu não perguntei o seu nome. Eu preferi chamá-lo de menino-poeta. Com papel amassado ele mostrava com orgulho sua poesia escrita à mão. A deficiência na gramática era perceptível, mas que não valia diante da satisfação de ver aquele menino mostrar sua poesia que era vendida- sua última poesia vendida custou 2,00- nas ruas de Sobral.

-De onde vem toda essa inspiração, menino?

E apontando para a cabeça e sorrindo timidamente falou:
-Daqui moça, eu invento.

Foi olhando distante que ele confidenciou, sem me olhar nos olhos:
-Eu tenho vontade de encontrar ela, sabe? Não conheci minha mãe.

Morava com a avó que os ajudavam com o dinheiro do aposento. Ela faleceu e tiveram que sair da casa. Hoje, moram na rua; seu pai e um irmãozinho mais novo. “Ficamos em uma casa abandonada e passamos a noite. ”

Sem poder ir mais à escola, porque não sabe mais de nada e é morador de rua, o “menino-poeta” com 17 anos, vende sua poesia. Seja ela reinventada ou inventada, mas é a poesia que podemos encontrar no urbano de Sobral. Sim, existe arte, poesia, música, cultura em Sobral.



Comentário: Poderia ter feito muito mais perguntas para aquele garoto. Eu descobri com aquele menino que muitas pessoas estão carentes de serem ouvidas. Ele se pôs a falar e foi depois de escutá-lo que eu comecei a perguntar. Depois, ele se sentiu o menino mais importante daquela feirinha. Porque alguém escutava os seus causos.
Eu não conseguirei ser mais a mesma depois que encontrei o menino-poeta. Eu poderia ter feito bem mais, sentimento de impotência me invade. Não saber a localização do CRAS de Sobral me deixa frustrada. Não perguntar a casa abandonada que se abrigam, onde o pai dele estava.... Quantas perguntas depois me veio. Só torço para que aquele menino continue a vender sua poesia nas ruas e um dia, finalmente encontre sua mãe desconhecida.
Eu experimentei o que é ser habitada pelo outro e provei do valor que a narrativa tem.  

Eu sou uma criança

Imagem retirada de pesquisa Google
"Só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a"
Johann Goethe


Ninguém já não me pergunta pra onde eu quero ir. Do que quero brincar. Quais as tarefas que tenho pra fazer. Ligam a TV pra mim (nos canais mais divertidos) e me deixam lá. Não determinam quanto tempo eu tenho que ficar lá hipnotizada por aquelas cores e formas divertidas. 
Às vezes eu desenho, sabe. Minhas tias dizem que eu desenho muito bem. Que tenho o dom da arte. Na verdade, nunca entendo o que realmente isso quer dizer. 
Meu pai trabalha o dia inteiro. Quando chega em casa, já quer ir logo dormir ou ficar na frente do computador. 
Minha mãe não me chama mais de linda, nem que sou o orgulho dela. Hoje ela me fala uns nomes que ela diz pra eu nunca dizer. Ela fala alto comigo. Mas, eu também falo com ela assim. 
Minha roupa não é tão cheirosinha como das outras meninas da minha idade. 
Minhas tias dizem que já estou uma mocinha e logo vou querer namorar. Eu não quero namorar. Eca! 
Eu sou legal. Eu acredito ainda em fadas. Minha tia me disse que elas moram no jardim, num cogumelo. 
Dã lógico que papai Noel não existe! Me disseram que ele veio só pra dar um presentinho pro menino Jesus. Mas, o nosso presente é o menino Jesus que chega todo Natal. 
Não quero presente. Mentira, quero sim! Mas, meus pais não têm mais tempo pra mim. Eu sei, eu percebo. Já não encanto mais meus pais como antes. Não gosto da escola. Minhas amigas me dizem que sou feia. Minha avó disse que não. Prefiro acreditar nela. Dizem que avós sempre falam a verdade. 
Não queria mais escutar os gritos da minha mãe. 
Eu sei que sou abusada às vezes. Mas queria um dia com minha mãe e meu pai só pra mim. 


Nota: Nossas crianças sofrem com a necessidade exagerada de profissionalismo de nossos pais. E os pais de hoje não tem mais tanta paciência como antes. Algumas são mães cedo demais e terceirizam suas obrigações. Ter filhos vai muito além do dar presentes, alimentação, pagar estudos. Ser pai, ser mãe é responsabilidade, é uma decisão de forma de vida. 

Um pedido atendido

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"E mesmo que em ti me perca. Nunca mais serei aquela que se fez seca. Vendo a vida passar pela janela."
(Maria Gadú-Quando fui chuva)

Eu não estava feliz com algumas coisas na minha vida. Em uma de minhas viagens, visitei uma igreja. Dizem que quando visitamos uma igreja pela primeira vez e se fizermos uma oração, um pedido ele será atendido. Eu fiz o meu. Essas crenças não rolava muito comigo. Mas, eu acreditei. Prossegui com a viagem. 
Ultimamente a internet tem aproximado muito as pessoas. Foi isso que aconteceu comigo. Começamos a conversar, fazia muito tempo que não nos falávamos. Eu estava numa cidade diferente da sua. Quilômetros de distância um do outro. Passamos a madrugada inteira conversando- essas conversas que só acontecem na madrugada- Não me importava com o relógio que insistia em me avisar das horas que se passavam. Tinha que viajar no dia seguinte. Ali não estava me importando muito com distâncias. Nem com cansaço. Deus foi um intermediador do nosso encontro, mesmo que virtual ainda. 
Nossa relação começou a ficar mais estreita. Usando assim de forma bem clichê; ela era uma versão feminina de mim. Isso me dava uma certa segurança. 
Fui  mudando depois que ela chegou em minha vida. Não exigiu nada. Não forçou pra que eu mudasse. Eu apenas mudei. As lacunas foram preenchidas depois da chegada dela. E não há sensação melhor do que esperar ansioso para que o tempo da viagem termine e eu possa encontrá-la. Não me importo com o fim das coisas. Se vai dá certo ou não. Só quero estar perto dela. Em suas conquistas. E quero que ela esteja do lado. Só quero poder vivê-la. E um dia aqueles olhos irá aquecer ainda mais meu coração e sei que ao sorrir ela vai me fazer tirar um pouco o fôlego (eu adoro quando ela sorrir).

Nota: Um amigo meu me contou essa história. E eu achei incrivelmente linda. E sim, ele mudou. rs E estou ansioso pra que ele retorne e a encontre logo! 

Alguém que me roubou de mim

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"Alguém me levou de mim. Alguém que eu não sei dizer. Alguém me levou daqui." 
(Pe. Fabio de Melo)


Começamos a namorar e sempre foi aquela euforia. Tudo era muito intenso. Passávamos horas conversando no celular. Eu dizia tudo que fazia. Primeiro não era porquê ele me exigia que eu falasse, saía natural. Eu trocava minhas saídas pra casa de minhas amigas pra estar com ele. Eu morria de medo de perder ele, é sério! Não via minha vida sem ele. Eu o amava demais. Eu saía com ele. Eu respirava ele. Sabe, eu já nem me importava assistir aqueles filmes de animes, que sempre achei tão idiotas. Não, nós nunca assistimos um romance. Mas, não me importava. Ele ficava tão feliz quando eu jogava vídeo-game. Se ele ia à casa de minha avó? Não, não mesmo. Ele nunca foi disso. Eu conhecia todos os seus amigos. Ele vivia publicando declarações no facebook pra mim. Isso me deixava tão feliz! Não, não ele não falava tudo.. assim.. exatamente tudo que ele falava naqueles posts enormes. Mas era o jeito dele. Nunca cobrei não.
Ele começou a querer ver com quem eu conversava. Quis todas as minhas senhas, mas disse que não ia ficar vasculhando nada não. Apenas queria saber. Eu dei. Eu sabia das dele também, mas eu sempre esquecia. Ah, sei lá.. Sem importância! 
Eu havia passado no vestibular. E ele não gostou nada, nada. Mas me deixou ir na condição de sempre mandar mensagens pra ele avisando o que estava fazendo. Claro que aceitei! E isso era o de menos, não acha? Fiz o combinado. Conheci tanta gente legal!Sempre marcavam de sair. Mas, eu não podia. Nunca que ele ia aceitar a ir comigo, nem deixar eu ir sozinha. Isso começou a me sufocar. Deixei de avisar sempre onde eu ia, o que fazia. Com a desculpa que estava em aula, bateria fraca, sem área. Mas sempre era uma briga. Ele já não falava mais que eu era linda, mandava eu vestir roupas mais compridas e deixar de usar batom vermelho. Não fiz. Comecei a irritá-lo. Ele ficava muito irritado comigo. Não, não ele nunca me bateu não. Ele foi me afastando dele com esses controles. Ele controlava meus amigos, controlava minhas saídas, meu mundo virtual. Eu mudei as senhas e não o avisei. A faculdade já estava um inferno. Porque eu não conseguia estudar. Ele já me dava um certo medo. Eu não sabia o que fazer. Não conseguia deixá-lo. Era dependente dele.
Conversamos.  Ele me prometeu que mudaria. Hoje ele não me cobra mais. Mas, eu ainda faço tudo igual. O problema sou eu. Eu sei. Sinto medo. Não sou uma pessoa feliz. Minhas olheiras estão cada vez mais evidentes. Meu cabelo anda sempre bagunçado. Já não uso mais meu batom vermelho. As aulas.. minhas notas estão cada vez piores. Ah, qual curso eu faço? Letras com habilitação em inglês. Se eu quero terminar com ele? (pausa) E vou fazer o que da minha vida?


Nota: após três semanas o namorado dela terminou a relação. Ele mantinha um relacionamento a distância com outra garota. E ela viu seu mundo desmoronar. Passou alguns dias trancafiada no quarto. Nunca foi diagnosticada com depressão. Mas esteve bem pertinho. Hoje ela retornou as aulas. Não usa batom vermelho ainda. Mas vai usar. O cabelo cortou. E ela ainda me confessou que reza por ele todos os dias. 

O nosso nó (nós)

Imagem retirada de pesquisa Google

E a gente se dava um nó. E eu era invadida pela paz que ele trazia em si. Sabe quando a pessoa se despede e ainda fica aquele gosto dela no tempo? Ele tinha esse poder. Ele selava a saudade em mim e de brinde trazia a tranquilidade no decorrer do dia. Até a espera de encontrar de novo, pra acochar o nó que se fazia.
Ele trazia marcas na vida. E o que ele carregava era ouro pra mim. Mas ele tinha uma capacidade estrondosa de saber amar o outro.
O afeto passava por ele e me alcançava . Os olhos dele comportava uma fortaleza . Ele era melodia, som, acorde. E eu a letra da canção.
Eu queria dizer pra ele que é precioso pra mim. E que mesmo pela distância que impede de nossos olhos se encontrarem, eu sei que ele é território santo. E se hoje alguém foi embora de sua vida é porque enxergou quem realmente ele é. Pois aquele que o conhece depois que toca em sua vida, é impossível querer sair de perto.
Duas pontas que se uniam. Formando uma terceira pessoa-Nós-Nó. Eu, tu e um Nós. Nó.

Coisas que ônibus traz (amizades)

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"Eu vejo flores em você"
(Ira)


"Ela tem cara de chata."
"Nossa.. Tem tatuagem!"
"Ela rir de um jeito diferente."
"Ela olha pra gente de um jeito diferente."
"Ela dá atenção quando a gente fala."

Ela me disse que sonhou com minha voz. Sabia como era meu jeito. Ela sempre teve essas coisas de sonhos premonitórios, essa coisa toda. 
Eu fazia cursinho. Ela também. Eu pegava o ônibus às 17h:30h e ela estava lá toda vez. Às vezes guardava um lugar ao lado dela. Íamos de mãos dadas olhando o pôr do sol. Falávamos sobre medos. Sonhos. Planos. Amigos. Sorrisos. Ela foi a melhor coisa que apareceu em mim. Eu tinha medo de dizer "eu te amo" e ela me escreveu um bilhete com essas palavras. Brincávamos de amarelinha na calçada quando fui visitá-la em sua cidade. Tinha flores na banquinha ao lado da cama quando fui vistá-la a primeira vez. 
Flores exalam perfume, enfeitam os jardins, as casas. Ela enfeitava a minha vida, a minha alma. A carregava com orgulho. Ela tinha o melhor sorriso. O melhor abraço. Não morávamos na mesma cidade. O cursinho estava acabando. Como ia ser sem ela? Sem aquelas tardes? Os contextos podem ser facilmente mudados, mas essência, não. Ela merecia uma parte melhor. Algo que visse onde estivesse e lembrasse de mim. Por mais que não estivéssemos tão próximas
Um dia eu olhei pro céu. Vi uma estrela, tão linda. Tão brilhante quanto ela, quanto nossa amizade. Nossa amizade ficou gravada nas estrelas.

Essa é minha história.

O Direito de Ser Frágil

Imagem retira de pesquisa do google.








"Limites nos cercam a todo instante. Como é bom saber, reconhecer-se faltosa, incompleta, frágil."
(Marina Silva)








Reconhecer os limites que comportamos não é uma atitude de derrota. Pelo contrário, é uma atitude de saber quem eu sou, saber que há imperfeição em mim e que será necessário trabalhar em cima desta minha fragilidade. Somos educados a sermos curados pelo esquecimento. Ninguém nos encoraja a chorar quando estamos com essa vontade. “Engole o choro”! Escutamos alguém dizer para nós. Quando estamos tristes logo querem nos ver felizes, se tudo é tão efêmero logo isso vai passar também. Mas quem sabe aquela pessoa esteja ali só querendo um olhar amigo, falar o que está lhe tirando a paz, falar de suas certezas mesmo provisórias. Quem sabe ele só não queira um café e uma boa prosa.
Reconhecer encoraja muito mais do que o fazer esquecer. Quando você esquece você olha apressado, sem muitos detalhes. Reconhecer nossas fragilidades é identificar o avesso que existe. O que me define não é a moldura, mas todo o contexto da obra. Tem como crescer sendo frágil. Vulnerável.
Amar também é ser frágil. Como nos sentimos vulneráveis quando estamos apaixonados. Nos vemos nas mãos daquela pessoa. Com o passar do tempo, esta pessoa nos dar a mão e caminhamos de mãos dadas. Ah, meu amigo amar é isso; É segurar a mão do outro e caminhar de mãos dadas, não estar nas mãos de outro alguém. Como é bom encontrar alguém onde podemos ser frágeis, mostrar que não precisamos ser fortes. Encontrar alguém onde só de olhar já nos sentimos acolhidos. Sem precisar ser muito, sem esforço nenhum ser apenas eu mesmo. Cheio de virtudes e de limites também. Alguém que possa me dar o direito de ser frágil também.
 “Quando sou fraco aí é que sou forte” (2Cor 12,10)."